Guarda Pessoal

REQUISITOS NECESSÁRIOS PARA QUE SE POSSA TREINAR COM SUCESSO UM CÃO PARA O SERVIÇO DE PROTEÇÃO

A idéia de que qualquer cão pode ser treinado com sucesso para o serviço de proteção (1) é bastante comum entre pessoas leigas, e até entre alguns profissionais. Infelizmente é um engano que pode causar muitos problemas.
Existem certas características que devem ser observadas no cão para um desenvolvimento seguro do trabalho de proteção. O cão deve ter certos impulsos gerados por seu patrimônio genético que viabilizem o treinamento.

a) Principais impulsos usados no trabalho de proteção:

- Impulso de caça ( Prey drive): É o impulso de perseguir objetos em movimento e agarrá-los, muitas vezes sacudindo-os com a boca em um típico movimento para “matar a presa”. Filhotes já mostram este impulso quando perseguem uma bola ou brincam de cabo de guerra com um pano.

- Impulso de defesa ( defensive drive) : É o impulso que gera atitude agressiva de auto proteção contra uma ameaça ou perigo percebido. A intensidade deste impulso é uma característica genética de cada cão e não pode ser treinada.

- Impulso de luta (fight drive ) : Pode-se definir este impulso como a interação da caça (rapidez) com a defesa (intensidade), gerando no cão um desejo de iniciar uma confrontação com o oponente, buscando demonstrar superioridade.

b) Treinamento.

Ao iniciar o treinamento de um cão no serviço de proteção, deve-se antes de mais nada estar seguro da competência do treinador e/ou figurante (2).
Muitos problemas são causados ao treinar para proteção um cão inadequado ou sem aptidão para tal. Neste caso, não será possível obter do cão a atitude necessária ao serviço de proteção ou pior, ele poderá tornar-se um mordedor por medo (3).
O treinamento de proteção NÃO é provocar o cão até que ele morda. Na verdade é a pior coisa que se pode fazer. Para o bom desenvolvimento do treinamento do serviço de proteção é necessário um bom equilíbrio entre os impulsos de caça e defesa. No início o figurante deve trabalhar basicamente com o impulso de caça do cão. É através deste impulso que o cão pode ser ensinado a morder corretamente , ser confiante e gostar do trabalho de proteção. O trabalho tem que ser muito gostoso para o cão.
O momento certo para se trabalhar com o impulso de defesa é a partir de um ano e meio mais ou menos, pois a partir daí o cão já tem este impulso mais desenvolvido e já está maduro o suficiente para enfrentar o stress que acompanha o impulso de defesa. Como o trabalho com a defesa é estressante, torna-se necessário que o figurante tenha a sensibilidade para aliviar a tensão do impulso de defesa, fazendo o cão passar para o impulso de caça no momento certo, usando a caça para aliviar a tensão produzida pelo impulso de defesa.
O trabalho que o figurante realiza é extremamente complexo e o descrito acima é apenas uma amostra de como o trabalho deve ser conduzido. Desta forma o figurante deve ter o conhecimento e a sensibilidade para que o treinamento de proteção possa ser desenvolvido com sucesso. Ele é peça fundamental no treinamento

c) Os Tipos de cães conforme os impulsos de caça e defesa:

- Cães com alto impulso de caça e alto impulso de defesa são altamente desejáveis para o treinamento de proteção. Aliados a outras características tais como controle de nervos, auto confiança, pouca sensibilidade à ambientes diferentes, entre outras , conjugadas ao correto manuseio dispensado pelo figurante e o condutor poderão fazer deste cão um excelente animal para proteção, tanto no esporte como na vida real.
- Cães com alto impulso de caça e baixo impulso de defesa podem ser treinados sem maiores problemas para o serviço de proteção, entretanto provavelmente nunca farão um trabalho que realmente impressione pela seriedade.
- Cães com impulso de caça baixo e alto impulso de defesa são muito difíceis de se treinar e podem se tornar cães muito perigosos se treinados de forma incorreta. Portanto, na grande maioria das vezes, não é aconselhável treinar este tipo de cão para proteção. Trará mais problemas do que benefícios, além do treinamento ser muito estressante para o cão. Estes cães devem ser socializados ao máximo e treinados para obediência.
- Cães com baixo impulso de caça e baixo impulso de defesa dificilmente poderão ser treinados para o serviço de proteção.

Obs.: Os tipos de cães referidos neste item são exemplos de animais com impulsos analisados em seus extremos; todavia, a intensidade dos impulsos varia em cada cão.

d) Algumas recomendações:
- A raça do cão não assegura um indivíduo apto para o serviço de proteção. Existem enormes diferenças individuais dentro de uma mesma raça. Escolha bem.
- Por mais incrível que possa parecer, um cão inseguro ou mesmo o chamado mordedor de medo(3) é freqüentemente confundido com um cão corajoso, pois muitas vezes este tipo de cão mostra agressão (erradamente as pessoas confundem agressão com coragem), mas é sempre uma agressão gratuita fruto da insegurança e do medo. Cães inseguros são excelentes para dar alarme em quintais mas não servem para ser treinados como cães de proteção.
- Os cães auto confiante, com os impulsos equilibrados e nervos firmes, são na maioria esmagadora das vezes dóceis e tolerantes com outras pessoas, crianças e animais. E, se bem treinados, farão um trabalho de proteção de arrepiar os cabelos.
- Cães com alto impulso de defesa e baixo impulso de caça não devem ser treinados para proteção sem uma cuidadosa avaliação por pessoas competentes para tal.
- Todo o treinamento de proteção deve suceder um cuidadoso e bem embasado treinamento de obediência.
- Socialização é importante para todo e qualquer tipo de cão. (ver artigo sobre o tema em boletins anteriores "Socializar é Preciso").
- Um cão de trabalho não é uma máquina a serviço do homem, todo cão tem fraquezas e virtudes cabendo ao bom treinador trabalhar para diminuir os pontos negativos e aprimorar os positivos.
- Uma forte ligação unindo cão e condutor é fundamental para o bom serviço de proteção, bem como para qualquer trabalho que se deseje fazer com o cão (ver artigo no boletim anterior "Além da Técnica e da Aptidão Genética").



Glossário:

(1) Serviço de Proteção: é como chamam a rotina de treinamento, competição ou situação real em que o cão defende seu condutor, respondendo a um ataque direto. É importante salientar que o cão NUNCA deve ser treinado para atacar e sim para reagir a um ataque anterior. Por isto é errada a terminologia “ataque” muitas vezes usada para se referir ao trabalho de proteção. Um outro ponto importante é que o cão defende o condutor e não a si mesmo. É extremamente danoso para o treinamento ou para o cão quando o mesmo é colocado em uma posição de autodefesa. Nestes casos assim que tiver oportunidade ele optará pela fuga, uma maneira eficaz e perfeitamente válida na natureza se proteger.

(2) Figurante : Em inglês “helper” ou em alemão “helfer”, é o ajudante ou auxiliar no serviço de proteção. Na formação e treinamento de filhotes é a pessoa que disputará a "caça" com o cão (paninho ou "linguiça" de estopa, que o cão deve defender como um predador protegeria uma caça na vida real) ou o confrontará fazendo com que o impulso de defesa aflore. Em provas esportivas de proteção é o ajudante do juiz, devendo fazer o papel de agressor, ou seja, aquele que o cão enfrenta na defesa de seu condutor. O figurante deve trabalhar sempre, em toda e qualquer circunstância, em prol do cão. Deste personagem se exige alta capacidade atlética, grande sensibilidade para detectar os diferentes estados de espírito dos cães e profundo conhecimento de comportamento canino.

(3) Mordedor por medo: é assim chamado o cão bastante inseguro e medroso que tem atitude de agressão (mordida) como reação a este sentimento de medo. É um cão extremamente perigoso pois pode morder sem provocação ou motivo aparente que justifique tal atitude. Ao menor sinal de insegurança, este cão reage mordendo e desta forma um simples movimento brusco de uma pessoa desconhecida pode causar um acidente. A mordida deste cão no entanto é totalmente defensiva e sem potência, causando geralmente ferimentos leves - ele morde normalmente com os caninos e imediatamente recua em atitude de fuga.

Autor: Sergio de Oliveira - Presidente da SVCPA

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